22 de maio de 2022 4:12 AM

Coluna

AS CURVAS DA ESQUERDA

Foto: Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato

Ante a hipótese, bem razoável, da vitória de Luiz Inácio
Lula da Silva no pleito presidencial de outubro, emerge
naturalmente a questão: onde está e para onde vai a
esquerda no Brasil? Para começar, a constatação: a
esquerda, hoje, já não é mais a de Lula em fevereiro de
1980, quando um grupo heterogêneo, formado por
militantes de oposição à Ditadura Militar, sindicalistas,
intelectuais, artistas e católicos ligados à Teologia da
Libertação, reuniram-se no Colégio Sion, em São Paulo,

para fundar aquele que viria a ser o mais forte partido de
massas do país, o PT.

Não é mais aquela esquerda que desfraldava a bandeira
do socialismo marxista, inspirada na visão de Karl Marx
sobre a formação do capitalismo e a previsão de sua
catastrófica derrocada. E está longe de ser a ditadura do
proletariado que tanto agitou a ex-URSS de Lenin, o
revolucionário Vladimir que levou os bolcheviques ao
poder na Rússia de 1917, e do outro Vladimir, o Putin, hoje
o Senhor da Guerra que destroça a Ucrânia, e admirado
pelo amigo Jair Bolsonaro.

A esquerda, é forçoso reconhecer, frequenta mais a boca
e menos a consciência de nossos políticos. É mais um
verbete que funciona como graxa para limpar perfis
corroídos. Tem perdido charme ao longo das últimas
décadas.

A “violência como parteira da História”, dogma
apregoado por Engels e que se firmou na segunda metade
do século 19, até tentou fazer escola por nossas plagas, nos

idos de 60, mas foi repelida pelos militares. O país abriu
uma vasta área no canto esquerdo do arco ideológico, onde
passou a acomodar as estacas do alquebrado socialismo
revolucionário ao lado de tijolos do liberalismo político e
econômico. Donde se produziu uma salada mista, tendo
como condimentos o Estado mínimo e o Estado máximo,
sob expressões até hoje polêmicas, como “capitalismo de
face humana”, “socialismo de feição liberal”, todas
patrocinadas pela corrente maior da social-democracia.

Nem mesmo a China, também controlada por um
partido comunista, como a Rússia, se porta como uma
Nação de identidade socialista, eis que implantou um
ambiente liberal para o setor privado, apresentando-se,
hoje, como uma superpotência econômica, liderada pelo
pragmático Xi Jinping, no centro do poder desde 2012.

Desse modo, falar da esquerda é um velho vício que tem
mais a ver com as molduras da estatização e da privatização
de empresas, de gastos na esfera da proteção social, na

defesa dos direitos humanos, em todas as suas dimensões,
ou no maior ou menor intervencionismo do Estado.

Pragmatismo, é nessa arquitetura que se esboça o que

muitos pensam da esquerda. Geraldo Alckmin, ex-
governador de São Paulo, um perfil assentado no banco do

liberalismo ou, em outros termos, um frequentador assíduo
das aulas do centro e da direita, virou esquerdista de
repente? Pois é, seu Partido Socialista Brasileiro acaba de
empossá-lo como guru do partido, a ponto de indicá-lo
como vice na chapa a ser encabeçada por Lula. E o que os
petistas pensam? Muitos trituram as unhas ao vê-lo como
aliado do lulopetismo. Lembre-se que ele sempre o
criticou. O pragmático esqueceu o dogmático.

O fato é que Luiz Inácio já experimentou todos os
sabores da esquerda e fará tudo que estiver ao seu alcance
para voltar a prová-los mais uma vez. Desta feita, com um
olho no centro do poder, outro no andar da carruagem
congressual. Lula aprendeu que governar no Brasil é um
ato compartilhado. Sem uma base parlamentar, vai ser

encostado pela velha política. E os mais renitentes petistas
terão de recitar sua receita.

A esquerda não faz mais medo. Hoje, seu caminho é
cheio de curvas. Só amedronta aqueles que dela se servem
para compor discursos, narrativas estrambóticas, alas que
veem escapar de suas mãos os frutos do poder. De tanto
bater, as “esquerdas” alcançaram a alforria. Querem voltar
a adentrar o Palácio do Planalto. Claro, preservando os
vãos centrais do liberalismo. E sem as reminiscências das
lorotas leninistas/marxistas. E mais: com cuidados
redobrados sobre as pilastras da Petrobras, com seus dutos
mensaleiros.

Quem quiser assumir posições de esquerda, que se
acolham em outros lugares, como o PSOL, o PSTU e
adjacências (será que existem adjacências?). Sobre o
restante, há muito consenso. Serão preservadas as outras
faixas das esquerdas democráticas, a liberdade política, o
controle social do mercado e a organização da sociedade
civil.

Agora, que ninguém espere por milagres. Persistirão as
antigas conexões do patrimonialismo. Que correrão para se
abrigar no Centrão das conveniências.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político