1 de julho de 2022 1:35 PM

Coluna

Porandubas nº 752

Foto:
Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com historinhas do grande Câmara Cascudo, descritas pelo acadêmico e professor Diógenes da Cunha Lima, em sua magnífica coletânea Câmara Cascudo, um Brasileiro Feliz (Lidador, 3ª ed.)

O poeta João Cabral de Melo Neto insiste em ver Cascudo. Dona Dália adia várias vezes a visita, preocupada com a saúde do marido. Zila Mamede interfere, lembrando que o poeta e embaixador vai dar muitas alegrias a Cascudo. Pontualmente, às 3 da tarde, chega o poeta. Cascudo não se contém. Fica de pé, gesticula, conta casos, relembra fatos durante mais de duas horas. Enquanto recita poesia galega Cascudo desmaia. João Cabral e Zila Mamede evitam a queda. Instala-se o nervosismo, procura-se um cardiologista, telefones que não atendem, João Cabral toma tranquilizantes, Cascudo foi abrindo os olhos, direcionou-os para João Cabral, falou com voz muito triste:

– Estou preocupado….. com ele… E apontou para o poeta.

No Rio de Janeiro, uma senhora da alta sociedade, que não gostava de Cascudo, encontra-se com ele num elevador. Cascudo lhe fez as devidas vênias. Ela, imperiosa:

– Sabe que eu nunca li um livro seu?

E Cascudo incisivo:

– Nem eu

Cascudo deixou o curso da Faculdade de Medicina, que havia iniciado na Bahia, para se formar em Direito, em 1928. Perguntado porque tinha abandonado o curso médico, ele disse, sem hesitar:

– A pedido dos doentes.

Panorama visto de perto

Um vice

O ministro Walter Braga Netto, ministro da Defesa, deverá ser o vice na chapa de Bolsonaro. O general Mourão, o atual vice, se conforma com a eleição para senador pelo RS ou mesmo a vice-governador numa chapa sulista. Bolsonaro disse, este fim de semana, que seu escolhido para a vaga “é de Belo Horizonte e fez escola militar”, perfil ao qual o ministro se encaixa. O movimento é visto como uma tentativa do presidente de se blindar contra processos de impeachment. As credenciais que levaram o general Braga Netto ao governo de Bolsonaro eram a de um militar experiente que executou a árdua missão de ser o interventor da segurança pública no Rio, em 2018, por designação de Michel Temer.

Procura-se um nome

Gilberto Kassab está à procura de um nome para ser o candidato a presidente pelo PSD. Era Rodrigo Pacheco. Passou a ser Eduardo Leite, mas as forças do PSDB pressionam para que o governador tucano do RS não saia do partido. Ventila-se, agora, com o nome do ex-governador do ES, Paulo Hartung. A dúvida persiste, Kassab não quer aderir logo ao Lula.

A saída de Marília Arraes

A eventual saída da deputada Marília Arraes, do PT, é um golpe para as pretensões do lulismo no Nordeste. A deputada não dialoga bem com a ala do senador Humberto Costa, do PT pernambucano. Mas Marília estará com Lula.

Rejeição

Há um Senhor Eleitor que está sendo desdenhado, menosprezado. É o Senhor Eleitor chamado Rejeição. Com mais de 30 de rejeição, um candidato fica na beira do precipício, e tem uns com mais de 50% de rejeição, que significa: “eu não voto nessa pessoa de jeito nenhum”. Tanto Bolsonaro quanto Lula registram mais de 50% de rejeição.

Jacques Wagner

Foi um bom governador da Bahia. Recusa-se a entrar outra vez no páreo. Quem faz objeção forte é a ex-primeira dama, dona Fátima Mendonça, que conhece o sacrifício de ser político, ainda mais para um cargo no Executivo em tempos de vacas magras, Estados sem recursos. Faz bem.

Rodrigo Garcia

O vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, está bem atrás nas pesquisas. Fernando Haddad lidera a corrida com muitos pontos na frente. Este analista lembra o alto índice de rejeição do petismo em São Paulo. E ainda acredita nas chances de Garcia.

Máscaras

As máscaras têm sido abolidas do território nacional. Na China, a covid-19 voltou com força. Temo uma nova onda. Sugiro a linha do bom senso.

A onda petista

O PT tem condições de fazer a maior bancada de deputados Federais e estaduais. Posição que já foi do MDB. O PT virou um partidão de centro.

O assistencialismo

Outro grande eleitor de outubro próximo será o assistencialismo populista. Anotem e cobrem.

“O que faz os atores medíocres é a extrema sensibilidade… e é a ausência absoluta de sensibilidade que prepara os atores sublimes. As lágrimas do comediante escorrem de seu cérebro; as lágrimas do homem sensível descem de seu coração. Diz-se que o orador é sempre melhor quando se inflama, quando irritado. Nada disso. É quando se finge de encolerizado. Os comediantes impressionam o público, não quando estão furiosos e sim quando representam bem o furor”. (Denis Diderot in Paradoxe sur le comédien)

Panorama visto de longe

Tirando a camada de exageros do bolo expressivo, o armagedom, como lembra o sábio professor Ivan Maciel, deixa de ser uma quimera, algo difícil a acontecer. Basta que um dos Senhores da Guerra aperte um botãozinho. Este fim de semana, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, chegou a alertar: se não formos capazes de acertar nossa conversa, a III Guerra Mundial torna-se um cenário à vista.

O Centro

É uma repetição impressionante. Por que a Ucrânia, um país de médio porte de 40 milhões de pessoas no extremo leste da Europa, esteve no epicentro da guerra não uma, não duas, mas três vezes?

Respostas

Parte da resposta tem a ver com geografia. Situada entre a Rússia e a Alemanha, há muito tempo é vista como o local da luta pela dominação do continente. Mas as razões mais profundas são de natureza histórica. A Ucrânia, com sua origem comum com a Rússia, desenvolveu-se de maneira diferente ao longo dos séculos, divergindo de maneira crucial de seu vizinho do leste.

Um só país

O presidente Vladimir Putin gosta de afirmar que a Ucrânia e a Rússia são de fato um país. O que é errado. Mas ele está certo em pensar que a história contém uma chave para entender o presente. Em 1904, um geógrafo inglês chamado Halford John Mackinder fez uma previsão ousada. Em um artigo intitulado “O pivô geográfico da história”, ele sugeriu que quem controlasse o Leste Europeu controlaria o mundo. Em ambos os lados dessa vasta região estavam a Rússia e a Alemanha, prontas para a batalha. E no meio estava a Ucrânia, com seus ricos recursos de grãos, carvão e petróleo.

Ponto de confluência

Não há necessidade de entrar em detalhes. Mas a Ucrânia provou ser extremamente influente após a Primeira Guerra Mundial, sendo o centro dos conflitos. Graças ao geopolítico nazista Karl Haushofer, o conceito migrou para o “Minha Luta” de Hitler. A Ucrânia era a ponte que levaria a Revolução Russa para o oeste até a Alemanha, tornando-a uma revolução mundial. O caminho para o conflito novamente passa pela Ucrânia. A guerra, quando ocorreu, foi catastrófica: na Ucrânia, cerca de sete milhões pereceram. Na sequência, a Ucrânia foi anexada à União Soviética por um tempo. Com o colapso do comunismo, muitos acreditavam que as profecias do geógrafo Mackinder estavam ultrapassadas e o futuro pertencia a Estados independentes e soberanos, livres das ambições de vizinhos maiores. Hoje, a posição da Ucrânia no mapa mundial é crucial para os desdobramentos dos conflitos na Europa e no mundo.

De História

Historinha de Sócrates

Quando ouvia alguém falando, perguntava se realmente sabia o que estava dizendo. Certa vez, ouviu um eminente estadista, aproximou-se dele e indagou:

– “Perdoe-me a intromissão, mas o que vem a ser para o senhor a coragem?”

– “Coragem é permanecermos no nosso posto em perigo”, respondeu o orador.

– “Mas suponhamos que a boa estratégia exigisse a retirada?”, replicou Sócrates.

– “Bem, isso é diferente. Está claro que, nesse caso, não haveria necessidade de permanecer no posto.”

– “Então coragem não é permanecer no nosso posto, nem retirar, não é verdade? Pergunto, então, o que é coragem?”

– “Confesso o meu embaraço. Creio que realmente não sei.”

– “Eu tampouco”, arrematou Sócrates, “mas será que se trata de algo que difere do uso da cabeça, pura e simplesmente. Isto é, fazer o que seja razoável, independente do perigo?”

– “Isso parece mais acertado”, observou alguém entre o grupo.

Sócrates finalizou:

– “Concordaremos, então, apenas para argumentar, é claro, pois é uma questão difícil, que a coragem se resume em sólido bom senso? A coragem é presença de espírito. E o oposto, nesse caso, seria a presença de em tal intensidade que perturbaria a mente?”

Winston Churchill, o humor

Há célebres passagens de humor de autoria de Churchill. Aqui, uma pequena seleção:

Abanando minha cabeça

Winston Churchill fazia um discurso mordaz quando um aparteador, saltando do lugar para protestar, só conseguiu emitir sons abafados. Churchill observou:

– “Vossa Excelência devia deixar crescer uma indignação maior do que a que pode suportar.”

Em outra ocasião, estava sentado, sacudindo a cabeça de maneira tão vigorosa e perturbadora, que o orador gritou, afinal, exasperado: – “Quero lembrar ao nobre colega que estou apenas exprimindo minha própria opinião.”

Ao que Churchill respondeu:

– “E eu quero lembrar ao nobre orador que estou apenas abanando a minha própria cabeça.”

Sou o chefe

O General Montgomery estava sendo homenageado, pois vencera Rommel na batalha da África, na 2ª Guerra Mundial. Discurso do General Montgomery:

– “Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói”.

Churchill ouviu o discurso e com ciúme, retrucou:

– “Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele.”

Se houver…

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto. Convite de Bernard Shaw para Churchill:

– “Tenho o prazer e a honra de convidar o digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver.”

Resposta de Churchill:

– “Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver.”

Por que não?

Quando Churchill fez 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:

– “Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos.”

Resposta de Churchill:

– “Por que não? Você me parece bastante saudável.”

Veneno no seu chá

Bate-boca no Parlamento inglês. Aconteceu num dos discursos de Churchill em que estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, conhecida pela chatice, que pediu um aparte (Sabia-se que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos, mas concedeu a palavra à deputada). E ela disse em alto e bom tom:

– “Sr. Ministro, se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!”

Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu toda a plateia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, mandou:

– “Nancy, se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá com prazer!”

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