27 de junho de 2022 6:51 AM

Coluna

Porandubas nº 760

Foto:
Gaudêncio Torquato

Abro a coluna com uma historinha do Ceará.

Que mundo doido…

– É o diabo, o mundo endoidou – exclamava Maneco Faustino nas ruas de Limoeiro/CE. E completava:

– Veja vosmicê: tá se vendo estrela a mei dia; já hai galinha com chifre; cangaceiro dá esmola pra fazer igreja; já apareceu bode que dá leite; chove no Ceará em agosto. Muié já se senta em cadeira de barbeiro.

Pedro Malagueta confirmava:

– Tá mesmo, cumpade, o mundo endoidou. Tenho três filha, duas casada e uma solteira: as duas casada nunca tiveram menino; agora a solteira todos os ano me dá um neto…

Panorama

Vamos a nossa leitura sobre a paisagem político-institucional.

Golpe

A cúpula militar não aprova ideia de golpe. A caserna está comprometida com profissionalismo. E preocupada em manter sua boa imagem. Numa régua de 0 a 10, a hipótese de golpe é zero. Na visão deste analista, claro.

Perna capenga

A perna social do governo, o programa Auxílio Brasil, está mancando. Cerca de 1,3 milhão de pessoas estão na fila, aguardando cadastramento. E tome queixa dos desassistidos. Ruim para Bolsonaro e bom para Lula, relembrado como o pai do Bolsa Família. Se essa perna continuar a mancar, imenso contingente mostrará sua indignação nas urnas no dia 2 de outubro próximo.

62 milhões

Falta grana no bolso de quase 62 milhões de brasileiros para pagar suas contas. A inadimplência aumentou 6% no mês passado, fazendo com que quatro em cada 10 brasileiros ficam com pendências junto aos birôs de crédito. Ruim para Bolsonaro.

Baratear fica caro

Brasduto – esta é a solução que os integrantes do Centrão estão maquinando para equacionar a falta de energia no país. Significa um aporte de R$ 100 bilhões para construir uma rede de termelétricas à gás perto de polos industriais, muitos longe dos consumidores. Uma ideia que vai encarecer muito o parque energético. Os recursos viriam do pré-sal. Regiões a serem contempladas: Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A rede de gasodutos, comenta-se, atenderia aos interesses de Carlos Suarez, o S da construtora OAS, de onde saiu em 1996. E, claro, aos interesses do Centrão. Objeto: construção de um “centrãoduto”.

A inflação

Bolsonaro minimiza os efeitos da inflação, que corrói a grana dos mais pobres. A inflação expande o custo dos alimentos, inflando o preço da cesta básica. O salário mínimo, hoje, tem um poder de compra bem menor do que no início da administração bolsonarista.

Fala contundente

Ouvi o discurso do presidente Bolsonaro no evento dos supermercados. Quase uma hora de fala aos gritos. Confesso que fiquei impressionado com sua exaltada expressão: abordou todos os temas, de improviso, usando exemplos e metáforas, ao lado de um desfile de palavras de baixo calão (tirar o meu da reta, porra, é foda e outras…). A impressão é a de que a fala aberta conquista ouvintes e é fator determinante para reforçar a cooptação de simpatizantes. Foi aplaudido diversas vezes. Um ataque duro ao lulopetismo e em defesa dos valores conservadores.

Tucano se bicando…

Os tucanos estão em alvoroço ante o incêndio que consome sua floresta. A cúpula tucana isolou o pré-candidato João Doria, que deixou o governo de São Paulo, submeteu-se ao filtro das prévias, ganhou a disputa e, agora, se vê “golpeado” por tucanos da cúpula. Há exceções, claro.

Pegando fogo

Fernando Henrique defende Doria por ter ganho as prévias. O próprio adversário, Aécio Neves, identifica um “golpe” contra João. Como se sabe, Doria e Aécio são desafetos e adversários políticos no xadrez do PSDB, mas a conjuntura colocou os dois no mesmo lado na reunião decisiva da Executiva Nacional tucana marcada para ontem, às 16h, na sede da legenda em Brasília. Como ficou o imbróglio? Até o fechamento desta nota, não havia informação de que Doria iria apelar para a Justiça para manter a decisão da prévia partidária.

A direita dá um salto

Surpreendente: 21% dos brasileiros simpatizam com ideias conservadoras, quase o dobro dos eleitores que se posicionam à esquerda, 11%. Este é o resultado de uma pesquisa feita pelo Senado junto a 5.850 pessoas entrevistadas. Trata-se de novidade. A impressão é a de que a esquerda havia tomado impulso nos últimos tempos. Mas, atenção: o grupo do nem-nem, nem esquerda, nem direita, nem centro, subiu de 50% para 55% de 2021 para cá. Em 2019, os centristas somavam 32%, em 2021, 11% e hoje somam apenas 9%. Na visão deste analista, deve haver um erro na metodologia. Como explicar a preferência do eleitorado para votar em perfis de esquerda?

Lula terá votos conservadores?

Essa é a dúvida que emerge. Será que o lulopetismo se alimenta de valores do conservadorismo? A hipótese parece não se sustentar. Pano de fundo: grande parcela dos entrevistados defende as urnas eletrônicas, diz ser contra a devastação ambiental e a expansão da população armada.

Lavareda

O cientista político, Antônio Lavareda, atesta: “essa tendência de uma guinada à direita vem ocorrendo desde 2012”.

Fenômenos da atualidade

Nesta parte, passo a apresentar alguns fenômenos da atualidade.

1. O protagonismo evangélico

Os evangélicos estão entrando de corpo e alma no território da política. Não apenas apoiando e lançando candidatos, mas lançando seus próprios nomes ao sufrágio universal. Evangélicos expandem suas bancadas e dão palpites em matérias diversas, a partir dos valores da família. E o Estado laico? A separação entre as coisas da religião e as coisas do Estado. Discurso ultrapassado. No MEC, faziam pressão, até com caravanas de pastores que frequentavam as antecâmaras do poder. “Dai a Deus o que é de Deus e a Cesar o que é de César?”. Eis um princípio que já não entra nos ouvidos evangélicos.

2. O protagonismo militar

Os militares também entram com mais vontade na seara da política, seja participando das máquinas administrativas nas áreas Federal, estaduais e municipais, seja como candidatos na esfera da participação eleitoral. Generais e coronéis tomam assento no Palácio do Planalto, têm remuneração aumentada com salários que se somam aos soldos e tomam decisões em setores estratégicos. Em suma, gostam desse tipo de participação. E parece desejarem continuidade nesse mister.

3. O protagonismo feminino

As mulheres avançam no terreno da política e nos espaços midiáticos. Mesmo que esse protagonismo ainda não tenha conquistado maior número de parlamentares e governantes, são visíveis os sinais de empoderamento das mulheres, que agem de forma mais intensa e organizada nos painéis que discutem políticas de elevação da cidadania.

4. O protagonismo da LGBTQIA+

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexuais, assexuais e outros grupos e variações de sexualidade e gênero, sob a bandeira da Associação Brasileira – LGBTQIA+ -, passaram a ter participação mais intensa nos foros nacionais do debate. Nas ruas e parques, sua presença se insere na estética dos novos tempos, de maneira desassombrada e consciente de seus direitos.

5. O protagonismo dos negros

Os negros ganham respeito e espaço na vida institucional e política. Nos domínios midiáticos, integram programas jornalísticos, novelas e mídias publicitárias. Estão presentes em praticamente todos os meios, podendo-se inferir que avançam nos caminhos da elevação da cidadania. Mesmo que ainda sejam alvo de discriminação por parte de um ou outro indivíduo.

6. A ladroagem tecnológica

Outro fenômeno da atualidade é a ladroagem que se expande pelas malhas da tecnologia. Hackers agem como ladrões tecnológicos, roubando cartões de crédito e senhas de usuários para surrupiar seus recursos. Os sistemas de segurança de bancos e lojas não garantem plena proteção aos consumidores, deixando janelas abertas ao crime. É a tecnologia usada pela criminalidade, que tende a ser uma mazela dos tempos modernos, aqui e alhures.

A defesa da cultura

Grupos de intelectuais se juntam para defender padrões culturais, tradições e costumes. Essa fortaleza de defesa é a esperança de que nossa cultura resista aos efeitos deletérios da globalização, que tende a apagar nossa memória. Partes de nossa história, parcelas de seus personagens, enredos e produção literária são frequentemente esquecidas ou jogadas no baú das coisas inúteis. Um desprezo ao passado. Felizmente, pessoas e grupos comprometidos com a cultura e as artes se unem em um cordão de proteção, buscando resgatar a semântica e a estética do ontem e trazendo à tona livros, poesias, imagens, quadros, crônicas, enfim, relatos que emolduram as páginas de nossa cultura.

Um exemplo

Querem um exemplo? Um grupo de acadêmicos – poetas, romancistas, cronistas – que integram a Academia Norte-rio-grandense de Letras. Quase diariamente, participantes do grupo nos brindam com a divulgação de acervos -, histórias, romances, crônicas, pinturas -, que pinçam dos recantos da memória. Nomeio alguns deles: Lívio Oliveira, prof. Ivan Maciel, Ivan Lira, Carlos Gomes, Iaperi Araújo, Prof. Benedito Vasconcelos Mendes, Leide Câmara, Humberto Hermenegildo, Edilson Nobre, Roberto Lima, Marcelo Alves, Armando Negreiros, Sonia Faustino, Diva Cunha, Marcelo Navarro, entre outros. Grupos assemelhados se espalham pelas unidades da Federação. Balões de oxigênio vitalizam a cultura brasileira. Um viva a esse Grupo!

Casamento

Lula casa, hoje, com a socióloga Rosângela da Silva, 55, Janja (Janjinha, como a chama). A noiva usará um vestido coberto de bordados feitos por moradoras de Timbaúba dos Batistas, cidade da região do Seridó, do Rio Grande do Norte. O evento é muito disputado. Terá cerca de 200 convidados. E mais de 500 esperando uma brecha.

Malha ferroviária de passageiros

A indústria ferroviária acaba de lançar um manifesto em que solicita ao governo investimentos para alavancar o desenvolvimento do sistema ferroviário regional de passageiros. Clama pelo marco regulatório do setor com vistas a maior segurança jurídica, garantindo que dispositivos já existentes, como o das autorizações ferroviárias, possam ser aplicados à área de passageiros, aumentando o rol de investimentos em infraestrutura nacional.

O manifesto

O manifesto, assinado por empresas e entidades, explica que, nos últimos 10 anos, a participação privada no setor metroferroviário urbano de passageiros aumentou mais de 300%. “A inexistência de um marco regulatório específico para o transporte regional de passageiros, segmento totalmente diferente do ferroviário de carga, em especial no que tange à operação, segurança, interface com os clientes e serviços ofertados, gera insegurança jurídica e instabilidade regulatória, que contribuem sobremaneira para o afastamento do mercado e o desinteresse pelo investimento privado”, argumentam os manifestantes.

EUA: cinco questões

Na campanha entre Bill Clinton e Bob Dole, em 1996, cinco questões básicas relacionadas a valores permitiam prever se alguém votaria num ou noutro. Os que deram respostas predominantemente conservadoras votaram em Dole. Aqueles cujas respostas revelaram que estavam menos comprometidos com os valores tradicionais votaram em Clinton. As perguntas eram as seguintes:

“1. Acredita que sexo antes do casamento seja moralmente errado?

2. A religião é importante na sua vida?

3. Já se interessou por ver pornografia?

4. Tem opinião mais desfavorável sobre alguém que engana o cônjuge?

5. O homossexualismo é imoral?”

(Dick Morris em Jogos de Poder)