20 de agosto de 2022 2:11 AM

Coluna

Porandubas nº 767

Foto:
Gaudêncio Torquato

A historinha engraçada de hoje está no final da coluna. Assim, forço um pouco amigas e amigos a passarem uma vista d’olhos nas notas. Rsrs

Pleito está decidido?

A maioria dos analistas políticos dá o pleito eleitoral de 2 de outubro como decidido. Ou Lula ou Bolsonaro. Ouso por uma pimentinha nesse caldo e dizer: se a política fosse regida só pela lógica, sim, o resultado seria contemplar um dos dois perfis com maiores índices de intenção de voto. Ocorre que política também é emoção. E com emoção, as coisas podem se tornar imprevisíveis. O Imponderável costuma nos visitar.

Equação eleitoral

Fatos + Barriga (cheia ou vazia) e outras Demandas Sociais + Circunstâncias +  Imponderável = Um elefante bem desenhado e/ou um elefante com a tromba no rabo.

Quem estaria no jogo?

Luiz Inácio, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e… Simone Tebet. Mesmo patinando na casa entre 1% a 3%, Simone não estaria fora do jogo. Teria, claro, desafios maiores a vencer. Trata-se do perfil que ganha grande visibilidade, mesmo com sua pequena margem de intenção de voto. Vê-se certa simpatia da mídia em relação a ela. O primeiro grande desafio é o da visibilidade. Precisa ser conhecida nos grandes, médios, pequenos centros de agregação de votos, e nos cafundós onde Judas perdeu as botas.

As botas de Judas

Se candidatos (as) passarem a ser bem identificados (as) nos cafundós de Judas, a probabilidade de ganhar um voto é de 50%, enquanto os (as) desconhecidos (as) se aproximam de zero.

Rejeição

Pesquisa deve ser lida como um instantâneo do momento. E o instantâneo flagra a paisagem ali adiante. Mas por trás da paisagem ou ao seu lado, há alguns elementos nem sempre observados pelos analistas de pesquisas. Refiro-me à rejeição, que mostra o desacordo do eleitor: não voto de jeito nenhum nessa pessoa. Esse fator é decisivo em um eventual segundo turno. Bolsonaro e Lula exibem altos índices de rejeição, beirando os 50%, na média.

Equação da rejeição

Rejeição = Desprezo + objeção ao nome + Distanciamento + Vingança + Passaporte de volta para casa.

Percepção

O eleitor precisa perceber a existência de Simone Tebet. Perceber é mais que saber seu nome, identificá-la pelas feições. Perceber é receber informações sobre ela e, a seguir, internalizar tais inputs. Internalizar é introduzir no sistema cognitivo um acervo de informações, imagens e conceitos sobre a pessoa, de modo que o eleitor possa aduzir: é com essa que vou às urnas. Se o eleitor considera que se trata da candidata a atender seus reclames e necessidades cotidianas, pode mudar de posição e inclinar-se em sua direção. A luz no fim do túnel é enxergada e passa a iluminar o corredor escuro.

Mais que gênero

Mulher, Simone Tebet canaliza a organicidade do gênero feminino, a ponto de poder fazer disso um armamento de competição. Mas deve evitar que seja conhecida como candidata das mulheres. Porque, assim o fazendo, criaria uma dualidade – candidato dos homens e candidata das mulheres. Candidatos e candidatas disputam o voto de todos, não apenas de gêneros, grupos, alas, categorias profissionais. Se as mulheres se sentem poderosas com a candidatura da Simone, ótimo. É um plus, um algo a mais. Mas não deve ser esse o único trampolim.

Equação do gênero

Decisão de votar = Identificação de propósitos (discurso) + Simpatia + Empatia + Proximidade + O fato de ser mulher (identificação de gênero -plus).

Tasso, boa imagem

Se incluir o senador tucano Tasso Jereissati na chapa como vice, Simone Tebet terá mais um fator de indiscutível peso. Tasso soma. Foi um bom governador do Ceará por dois mandatos, considerado reserva moral e política do PSDB, respeitado. Um perfil que expressa seriedade. A senadora Tebet deve anunciar isso nos próximos dias.

Discurso programático

Mais forte que gênero e raça, é o discurso programático. A identificação do (a) candidato (a) com um ideário tem mais força. Por exemplo, uma revolução na educação. Um plano de barateamento dos alimentos. Diminuir os índices de violência na sociedade. Defender o agronegócio e sua integração ao meio ambiente. Uma revolução no sistema de transportes no Brasil, com peso nos sistemas ferroviários de passageiros e carga. E assim por diante.

A organicidade social

A sociedade brasileira está de olho na política, ao contrário do que muitos duvidam. A descrença e indignação com a política funcionam como molas propulsoras de engajamento e participação. Mais ou menos assim: se os políticos tradicionais não dão respostas a nossas demandas, vamos eleger pessoas mais comprometidas com nosso grupo. A sociedade está organizada: núcleos, setores, categorias profissionais, alas, movimentos. Campanha bem feita é aquela que mobiliza um ou vários desses organismos e faz com que o discurso do candidato seja internalizado (conceito acima) por todos os participantes.

A menor distância

Tenho dito e repetido que Simone já ganhou imensa fatia do bolo com sua pré-candidatura. Se perder eleitoralmente, ganha politicamente. Fato incontestável. Ademais, atente-se para este princípio que tenho avocado: na geometria euclidiana, a menor distância entre dois pontos é uma reta; mas, na política, a menor distância pode ser uma curva. Fernando Henrique perdeu a prefeitura de São Paulo para Jânio Quadros e, mais adiante, ganhou a presidência da República. Na geometria euclidiana, A————-Z= Menor distância entre dois pontos é uma reta. Na política, pode ser uma curva A…(curva)…..Z.

Devassa

Pedro Guimarães, ex-presidente da CEF, acusado de assédio sexual e moral, fez, ontem, artigo na Folha de São Paulo, onde pede uma devassa completa em sua gestão no banco, desafiando autoridades e vítimas de mostrarem provas. Submete-se à transparência total. Aprofunda a desmoralização ante a bateria de depoimentos contra ele. Um caso a ser acompanhado com acuidade.

A compra de voto

A compra do voto está no tabuleiro do jogo. Essa PEC Kamikaze é uma bomba de efeitos mortíferos. Aliviará a barriga das bases que vivem na miséria, mas estourará as contas públicas, já sendo considerada a maior pedalada desses tempos turbulentos. Bolsonaro conta com esse pacote de “bondades e benefícios” para cooptar o voto da base da pirâmide. Por isso, não se pode dizer que Lula já ganhou a campanha. Essa projeção está mais para salto alto. E pode atropelar o petista.

A burla eleitoral

A burla está escancarada. Campanha não começou oficialmente. Mas, candidatos teimam em driblar a legislação. TSE, onde estás?

Fecho a coluna com o golaço do Dirran.

O goleador francês

Dirran (com “biquinho” para parecer francês correto), meio sarará, entroncado e de pernas curtas, jogava no Clube Atlético Potengi, no Rio Grande do Norte. Um dia, disputava no Machadão uma partida contra o Potyguar de Currais Novos, pela 2ª divisão do campeonato potiguar. O jogador atleticano era o destaque. Fazia dribles desconcertantes e lançamentos perfeitos. Fechou as glórias com um golaço. O narrador da Rádio Poti gritava: “Dirran é um craque”, “Dirran, grande aquisição do futebol norte-rio-grandense”. Dirran prá cá, Dirran pra lá. No final do jogo, o Clube Atlético Potengi perdeu por 3 x 1. Mas o destaque foi Dirran. Vendo todo aquele sucesso, um jovem repórter da Rádio Poti correu para fazer uma entrevista com o craque na beira do gramado. Disparou uma bateria de perguntas: Você deixou seus pais na França? Qual a cidade onde nasceu, Monsieur? Já desfilou no Arco do Triunfo? Como veio parar no Brasil? Pode comparar o futebol europeu com o futebol brasileiro? Qual a origem de seu nome? Desconfiado, espantado, zonzo, o jogador respondeu ao incrédulo repórter: “Pera aí, meu sinhô, num é nada disso; meu apelido é Cú de Rã, mas como num pode falar isso na rádio. então, eles abreveia”.

(Historinha muito conhecida e contada no Jô Soares).