26 de junho de 2022 12:36 PM

Coluna

UM NOVO CORONELISMO?

Foto:
Gaudêncio Torquato

UM NOVO CORONELISMO?
No Brasil, o passado é sempre revisitado. E com direito
a reviver hábitos, mesmo os pérfidos. É o caso do
coronelismo dos anos 30, do ciclo agrícola, que castigava
o livre exercício dos direitos políticos. Os velhos coronéis
da Primeira República (1889-1930) consideravam os
eleitores como súditos, não como cidadãos. Criavam
feudos dentro do Estado.

A autoridade constituída esbarrava na porteira das
fazendas. Agora, neste País urbano, principalmente em
alguns recantos, as autoridades precisam pedir licença para

subir morros. O império coronelista do princípio do século
passado finca raízes no roçado do Rio de Janeiro. O próprio
ex-ministro da Defesa, general Braga Netto, que acaba de
deixar o Ministério para se habilitar a ser vice na chapa de
Bolsonaro, já chefiou tropas no RJ com o fito de dominar
o império miliciano. Pouco conseguiu. entra um, sai outro,
e os grupos “donos de votos de cabresto” estão sempre
agindo. Nesse ano, a polarização política deve incrementar
essa modalidade eleitoral.

As denúncias afloram: comunidades de muitas cidades
do segundo maior colégio eleitoral do País chegam a ser
dominadas por milícias, quadrilhas comandadas por
policiais que ameaçam pessoas que não elegem seus
candidatos. E por mais que forças policiais entrem em ação,
milicianos posam com seus fuzis e desafiam o poder
constituído. O assassinato da vereadora Marielle Franco
continua coberto de mistérios.

Em plena segunda década do século XXI, vivemos
tempos de um novo coronelismo. Desta feita, até parece

que os nossos governantes aprovam a corrente
neocoronelista. Para recordar, o voto de cabresto, prática
fraudulenta dos tempos da velha República, transfere-se ao
domínio de comandantes de milícias, personagens da urbe
violenta que se valem da insegurança para implantar o
medo. Os currais eleitorais são comunidades miseráveis,
comprimidas em morros, favelas e bairros degradados,
onde o poder bandido monta formidável aparato.

A mudança da identidade nacional pouco tem
contribuído para a alteração do mapa político. Nos últimos
70 anos, a população urbana cresceu, no País, de 30% para
80%, agigantando cidades, expandindo demandas, e
propiciando a continuação de vícios, dentre eles o voto por
encomenda. É verdade que mudanças sociais e políticas, a
partir das décadas de 30 e 40, contribuíram para melhorar
a participação do povo no processo eleitoral. Mas não se
pode negar a imensa distância, hoje muito perceptível,
entre a fortaleza econômica e a nossa frágil estrutura
política.

O biólogo francês Louis Couty dizia, em 1881, que “o
Brasil não tem povo”. Seu argumento era que, dos 12
milhões de habitantes da época, poucos eram os eleitores
capazes de impor ao governo uma direção definida. Uma
razão para explicar nossa incultura política é a equação que
soma componentes como pobreza educacional das massas,
perversa disparidade de renda entre classes, sistema

político resistente às mudanças, sistema de governo – hiper-
presidencialismo de cunho imperial – e patrocínio de

mazelas históricas, entre as quais reinam o patrimonialismo
e o assistencialismo.

A concentração de forças permanece sob a égide do
Estado todo-poderoso, bem duro na função de cobrador de
impostos, eixo repressor, distribuidor de favores e com
poder de definir os destinos da sociedade. O corolário deste
modelo se expressa no conceito de “estadania” em
contraposição à “cidadania”, cultura orientada para o
Estado e não para a representação política. O brasileiro
continua a ser um “cidadão menor” e, sob esta perspectiva,

podemos compreender as causas para o ressurgimento de
novos coronéis da política, como os quadrilheiros urbanos.

Esse “cidadão precário” integra o maior contingente
nacional, sendo a grande maioria dos 150 milhões de
eleitores apta a votar. São os aglomerados que se aboletam
nas periferias congestionadas do Sudeste, região que abriga
quase 50% da população, e os bolsões carentes do
Nordeste, onde vivem 27% dos brasileiros. A vassalagem
de ontem muda de patrão, mas não de atitude. O drible
moral continua a dar as cartas.

Ontem, o coronel rural entregava o voto fechado no
envelope para o súdito depositar na urna, sem lhe dar o
direito de saber em quem estava votando: “O voto é
secreto” Hoje, o coronel miliciano e o chefe da gangue
prometem conferir votos dados a seus candidatos. Pior: o
comandante em chefe da Nação questiona a urna
eletrônica, enxergando nela motivos de fraude.

Não será de admirar se uma nova prática for adotada nas
eleições de outubro: o roubo de urnas eletrônicas para
driblar o processo eleitoral.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político