26 de junho de 2022 1:24 PM

Coluna

A GANGORRA DEMOCRÁTICA

Foto:
Gaudêncio Torquato

Duas notícias alvissareiras. A primeira é a da aprovação
pelo Senado americano da primeira juíza negra na Suprema
Corte do país, Ketanji Brown Jackson, por indicação do
presidente Joe Biden, no lugar do magistrado Stephen
Bryer, que vai sair em breve. A segunda boa informação é
a suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos
pela maioria dos membros da Organização das Nações
Unidas (ONU).
Ambas estão ancoradas nos valores do Estado
Democrático de Direito, a primeira com realce para o
conceito de direitos e justiça para todos, sem preconceito
de gêneros, cores e raças, e a segunda estimulada pela cruel
mortandade em Butcha, cidade da Ucrânia, onde a Rússia
teria cometido um massacre contra civis em fuga no
conflito que ali se desenvolve há quase dois meses.
A democracia estaria ganhando de lavada não fossem os
contrapontos que se formam no interior das próprias
decisões que denotam avanço dos sistemas democráticos.
A começar pela derrota de Donald Trump, que lutou de
maneira desbravada na justiça americana para provar ter
havido fraude nas eleições. Quando imaginávamos que
Trump significasse um furacão fora de estação, não é que
ele, refugiado em suas magnificas propriedades na Flórida,
continua a atirar a torto e a direito, sob os índices de queda
de popularidade de Joe Biden, de quem se esperava ser a
estrela brilhante no horizonte da democracia americana? O
fato é que o ricaço não abandonou a política e mais parece
um guerrilheiro ensaiando a nova batalha que travará em
2024.
Significa intuir que o conservadorismo está longe de ser
banido dos vãos da democracia. Aqui e ali, sinais, mesmo
não tão próximos, transmitem a impressão de que os
conservadores estão fincando estacas fortes nos férteis
terrenos democráticos. O presidente francês, Emmanuel
Macron, cai quatro pontos na pesquisa e vê se aproximar
dele a deputada Marine Le Pen, de 53 anos, que deve
chegar ao segundo turno, neste domingo.
A vitória, mais que expressiva, de Viktor Orbán, para
ser o premier da Hungria, é mais um exemplo de como o
conservadorismo vai enxertando as hortas da democracia
pelo continente europeu. Orbán é um dos amigos de
Vladimir Putin. Se formos dar uma olhada no nosso
continente, poderemos até comentar que a vitória de
Gabriel Boric, de 36 anos, no Chile, é sinal de renovação.
No Peru, protestos contra o governo de Pedro Castilho
são respondidos com repressão e toque de recolher. Bolhas
de insatisfação explodem em diversos recantos do planeta,
a comprovar que os sistemas democráticos padecem por
conta de demandas reprimidas das massas. Os liberais
tampouco têm conseguido atender aos reclamos e
expectativas das populações, razão pela qual o ambiente
geral de indignação dá guarida aos governos autoritários.
Aliás, é sensível essa guinada autoritária, segundo
reconhece a historiadora Lilia Schwarcz, ao lembrar que o
mundo “está reagindo às crises recessivas com governos
populistas”, que mais sensibilizam as populações. Para ela,
no caso brasileiro, o PT e o PSDB fizeram um pacto por
mais de 30 anos, cujo objetivo era se perpetuarem no poder,
deixando de olhar para setores que estavam desgostosos
com a política.
Entre as questões polêmicas entre os dois partidos está
a do meio ambiente, que bate de frente com o setor do
agronegócio, a par das políticas de inclusão social pela
educação. Os setores mais progressistas enfrentam os
núcleos mais autoritários, faltando uma intermediação que
faça confluir o jogo de interesses. Este será um tema na
mesa do debate eleitoral. Donde emerge a interrogação:
como reagirão as massas carentes ante temáticas que muito
as afligem, como o alimento barato, o transporte rápido e
eficiente, o sistema hospitalar bem desenvolvido?
Teremos uma campanha onde o vetor autoritário será
tão forte quando o pensamento progressista. E o populismo
dos programas de auxílio será fundamental para a decisão
sobre o voto. Vivemos, por enquanto, um clima ainda
ameno. Que tende a esquentar a partir de agosto. A
especulação grassará intensa. Mas ninguém pode se
considerar vencedor. Nem mesmo franco favorito. O verso,
por estas plagas, às vezes é lido pelo reverso.
Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político