6 de julho de 2022 9:02 AM

Coluna

O ELEITOR-MUTANTE

Foto:
Gaudêncio Torquato

O brasileiro não tem a convicção de um anglo-saxão,
para quem pau é pau, pedra é pedra. Dependendo do
momento e das circunstâncias o pau pode ter a consistência
de pedra a ponto de o homo brasiliensis jurar diante de um
tronco de madeira que se deparou com uma dura rocha.
Essa característica tem raízes no dna do nosso povo, alegre
e acolhedor, flexível e adaptável aos momentos.

Somos um povo de paz. Que procura harmonizar
posições, tirando proveito das situações, piscando à direita
e à esquerda. Não somos de pegar forte no trabalho, dizem.

Conta-se, até, a historinha do brigadeiro Eduardo Gomes
(UDN), em seu primeiro comício, no Largo da Carioca, no
RJ idos de 1945: “brasileiros, precisamos trabalhar”. Do
meio do povo, um ouvinte gritou: “vixe, já começou a
perseguição”. O comício quase acabou.

O fato é que não cultivamos a semente das convicções.
Somos afeitos às imprecisões. “Quantas horas o senhor
trabalha por semana”? “Mais ou menos 36 horas”. “O
senhor é católico”? “Sou, mas não vou à missa”. Petrolina
não viu, até hoje, uma gota de petróleo de sua terra, nem
Petrolândia ali perto. Quem leu Jorge Amado chega à
conclusão de que a Bahia de Todos os Santos deveria ser
apropriadamente chamada de Bahia de Todos os Pecados.

Já o gordo pernambucano Ascenso Ferreira, genial
intérprete da nossa cultura, cantava: “Hora de comer –
comer! Hora de dormir – dormir! Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar? – Pernas pro ar que ninguém é de
ferro!”

Nada por aqui é definitivo. Há sempre um acréscimo,
um “porém”, um drible dando curvas no foco das
interlocuções. No terreno da teatralização política, isso é
mais frequente. Daí a flexibilidade que mede as condutas
do eleitor brasileiro. Não temos mais a lealdade que se via
nos tempos da UDN e do PSD, partidos que dominaram a
cena no passado. Há, hoje, uma intermediação de fatores a
influir na decisão do eleitor. O eleitor sobe à gangorra por
meio de alguns empuxos. O primeiro é o bolso, garantido
por um emprego ou adjutório com o qual possa ajudar a
família. O segundo fator é a proximidade com o candidato,
aqueles com melhores condições de suprir as demandas. O
eleitor faz comparações. O terceiro é o discurso do
candidato, aquilo que o diferencia de outros e que também
tem condição de ser avaliado: será que este candidato fará
mesmo o que promete? Por isso, o candidato deve
demonstrar os meios para a execução de suas promessas.

A seguir, aparece o grupo de referências, as entidades e
lideranças respeitadas da região, cujas opiniões sobre os

perfis são ouvidas e respeitadas. A própria maneira de o
candidato se apresentar – formas de vestir, de se locomover
(a pé, de carro), de gesticular e se mover em palanques –
chama a atenção. O espalhafato, nesses tempos mais tristes
e de prevenção – afasta.

O Brasil da pandemia é capaz de encher as ruas com
gente clamando por mudanças, o que funcionará como
aríete contra os espetáculos falsos da política. O eleitor está
mais apurado, mais exigente, mais desconfiado. As
pesquisas mostram a inclinação do eleitorado para as
mudanças. O alto índice de rejeição dos dois principais
candidatos revela desinteresse pela política, um puxão de
orelhas nos políticos e suas práticas. Programas eleitorais
mostrando candidatos como produtos de consumo de
massa, com a imagem construída via efeitos cosméticos,
podem ser um bumerangue.

O que se vê hoje no cenário é um triste retrato da longa
distância que separa os anseios do povo do discurso dos
candidatos. Não existe a menor conexão entre o recado das

massas, esse ativismo ansioso que corre pelas redes sociais,
viagens e falas vazias dirigidas a pequenos públicos
escolhidos pelas assessorias. Maior prova é este início de
campanha gelado, de acusações recíprocas e desprovido de
engajamento.

Por último, o espírito do tempo, o vento da mudança.
Quando o vento corre para um lado, ensinava meu saudoso
pai, ninguém desvia sua direção.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político